Exacerbação da asma: classificação, doses e conduta

Avaliação rápida da gravidade, tratamento inicial, doses de broncodilatadores, corticosteroides, oxigênio, sulfato de magnésio e critérios para alta ou internação.

Por Rafael Maciel, Médico · Revisado em

CID-10: J45 (asma) · J46 (estado de mal asmático)

Nesta página

Classificação da gravidade

Consulta rápida: classifique a gravidade → inicie o tratamento imediatamente → reavalie em 1 hora → intensifique, dê alta ou encaminhe conforme a resposta. A gravidade deve ser determinada antes e durante o tratamento, considerando o conjunto dos sinais clínicos, saturação de oxigênio e função pulmonar quando disponível.

Parâmetros por nível de gravidade

ParâmetroLeveModeradaGravePotencialmente ameaçadora à vida
FalaPaciente geralmente consegue falar frases completasLimitação para falar frases completasFala limitada a palavras—
DispneiaDispneia sem limitação importante da falaDispneia mais evidente——
PosturaPode permanecer sentado ou em pé—Posição sentada, frequentemente inclinada para frente—
Agitação / exaustão——AgitaçãoExaustão
Nível de consciênciaSem alteração do nível de consciência——Sonolência; confusão
Frequência respiratória—Aumento da frequência respiratóriaFrequência respiratória >30/min—
Musculatura acessóriaUso ausente ou discreto da musculatura acessóriaUso de musculatura acessóriaUso importante da musculatura acessória—
Frequência cardíaca——Taquicardia—
SpO₂ / oxigenação——HipoxemiaHipoxemia importante ou persistente
PFE/VEF₁PFE/VEF₁ geralmente >50% do melhor valor pessoal ou previstoPFE/VEF₁ reduzidoPFE/VEF₁ ≤50% do melhor valor pessoal ou previsto—
AuscultaSibilância geralmente presente——Tórax silencioso ou entrada de ar muito reduzida
Resposta ao tratamento—Necessidade mais frequente de medicação de alívio—Deterioração clínica apesar do tratamento

A GINA 2026 destaca particularmente sonolência, confusão e tórax silencioso como sinais de exacerbação potencialmente ameaçadora à vida.

Fonte: GINA 2026 — Global Strategy for Asthma Management and Prevention

Conduta por gravidade

Exacerbação leve

  • Salbutamol: 4 puffs (pMDI 100 µg/jato) + espaçador
  • Reavaliar a resposta

Se houver resposta inadequada ou progressão dos sintomas, tratar como exacerbação de maior gravidade.

Fonte: GINA 2026 — Global Strategy for Asthma Management and Prevention

Exacerbação moderada

  • Salbutamol: 4–6 puffs (pMDI 100 µg/jato) + espaçador, ou 2,5–5 mg = 10–20 gotas (nebulização)
  • Ipratrópio: 0,5 mg = 40 gotas (nebulização)
  • Prednisolona: 40–50 mg VO, 1 vez ao dia, por 5–7 dias
  • Oxigênio: apenas se necessário — alvo SpO₂ 92–95%

Reavaliar resposta clínica e saturação após o tratamento inicial e, de forma estruturada, em aproximadamente 1 hora.

Fonte: GINA 2026 — Global Strategy for Asthma Management and Prevention

Exacerbação grave / ameaçadora à vida

Sinais de ameaça à vida: sonolência, confusão, exaustão, tórax silencioso, entrada de ar muito reduzida, hipoxemia importante, deterioração apesar do tratamento. Tratamento imediato em ambiente de emergência.

  • Salbutamol: 6–10 puffs (pMDI 100 µg/jato) + espaçador, ou 5 mg = 20 gotas (nebulização)
  • Ipratrópio: 0,5 mg = 40 gotas (nebulização)
  • Prednisolona: 40–50 mg VO, 1 vez ao dia, por 5–7 dias
  • Oxigênio: se SpO₂ <92%, titular para 92–95%
  • Sulfato de magnésio: 2 g IV em aproximadamente 20 minutos, se resposta inadequada ao tratamento inicial
  • Reavaliar em aproximadamente 1 hora
  • Monitorização contínua
  • Acesso venoso
  • Acionar equipe de terapia intensiva/anestesia conforme evolução

Fonte: GINA 2026 — Global Strategy for Asthma Management and Prevention

Doses em apresentações brasileiras

MedicamentoDoseApresentaçãoEquivalência
Salbutamol2,5 mg5 mg/mL0,5 mL ≈ 10 gotas
Salbutamol5 mg5 mg/mL1 mL ≈ 20 gotas
Ipratrópio0,5 mg0,25 mg/mL2 mL ≈ 40 gotas
Prednisolona40–50 mgconforme apresentação—
Sulfato de magnésio2 g IVconforme apresentação—

A equivalência em gotas deve ser confirmada na bula da apresentação utilizada. Não assumir equivalência de gotas quando a formulação ou o dispositivo for diferente.

Fonte: Apresentações brasileiras — confira na bula da apresentação utilizada

Conduta na primeira hora

1. Avalie rapidamente

Enquanto inicia o tratamento, avaliar:

  • Gravidade da exacerbação
  • Frequência respiratória
  • Frequência cardíaca
  • SpO₂
  • Capacidade de falar
  • Uso de musculatura acessória
  • Nível de consciência
  • Ausculta pulmonar
  • PFE/VEF₁, quando disponível

Fonte: GINA 2026 — Global Strategy for Asthma Management and Prevention

Procure fatores de risco

Perguntar sobre:

  • Exacerbações graves anteriores
  • Internações por asma
  • Internação em UTI
  • Intubação prévia
  • Uso excessivo de SABA
  • Uso inadequado ou ausência de corticosteroide inalatório
  • Problemas de adesão
  • Exposição a desencadeantes
  • Comorbidades relevantes

Fonte: GINA 2026 — Global Strategy for Asthma Management and Prevention

2. Inicie broncodilatador

Por pMDI + espaçador. Quando pMDI + espaçador não for adequado, utilizar nebulização.

  • Leve: salbutamol 4 jatos
  • Moderada: salbutamol 4–6 jatos, associar ipratrópio
  • Grave: salbutamol 6–10 jatos, associar ipratrópio 0,5 mg e iniciar corticosteroide sistêmico precocemente

Fonte: GINA 2026 — Global Strategy for Asthma Management and Prevention

3. Se houver anafilaxia

Se o paciente apresentar simultaneamente anafilaxia e exacerbação da asma, administrar epinefrina primeiro e depois iniciar o tratamento broncodilatador da exacerbação.

Orientação explicitamente incorporada à GINA 2026.

Fonte: GINA 2026 — Global Strategy for Asthma Management and Prevention

Reavaliação após o tratamento inicial

Reavaliar aproximadamente 1 hora após o início do tratamento, ou antes se houver piora.

O que reavaliar

  • Sintomas
  • Dispneia
  • Capacidade de falar
  • FR
  • FC
  • Uso de musculatura acessória
  • SpO₂
  • Ausculta
  • PFE/VEF₁, quando disponível

A GINA recomenda monitorar a função pulmonar quando possível, sem atrasar o tratamento.

Fonte: GINA 2026 — Global Strategy for Asthma Management and Prevention

Boa resposta

Considerar alta quando houver:

  • Melhora clínica importante
  • Ausência de sinais de gravidade
  • Redução da necessidade de broncodilatador
  • SpO₂ adequada em ar ambiente
  • Função pulmonar em melhora
  • Condições adequadas para tratamento domiciliar

Idealmente, o PFE/VEF₁ deve estar >60–80% do melhor valor pessoal ou previsto antes da alta, considerando o contexto clínico.

Fonte: GINA 2026 — Global Strategy for Asthma Management and Prevention

Resposta incompleta

Se houver melhora, mas persistirem sintomas:

  • Continuar broncodilatador conforme necessidade
  • Manter observação
  • Reavaliar frequentemente
  • Considerar nova administração de ipratrópio nas fases iniciais conforme gravidade
  • Manter corticosteroide sistêmico
  • Considerar internação se houver necessidade persistente de tratamento intensivo

Fonte: GINA 2026 — Global Strategy for Asthma Management and Prevention

Piora ou ausência de resposta

Reavaliar o diagnóstico. Considerar: pneumotórax, pneumonia, tromboembolismo pulmonar, anafilaxia, obstrução de via aérea superior, insuficiência cardíaca, corpo estranho, exaustão respiratória. E intensificar o tratamento:

  • Salbutamol
  • Ipratrópio
  • Corticosteroide sistêmico
  • Oxigênio se indicado
  • Sulfato de magnésio em exacerbação grave selecionada
  • Considerar UTI se houver deterioração clínica ou risco de insuficiência respiratória

Fonte: GINA 2026 — Global Strategy for Asthma Management and Prevention

Internação, UTI e alta

Critérios para internação

A decisão deve considerar a resposta clínica ao tratamento, e não apenas um valor isolado de PFE/VEF₁ ou SpO₂. Considerar internação quando houver:

  • Persistência de sintomas importantes
  • Necessidade frequente de SABA
  • Hipoxemia persistente
  • Obstrução importante persistente
  • Resposta incompleta ao tratamento inicial
  • História de exacerbação grave
  • Fatores de risco relevantes
  • Incapacidade de realizar tratamento adequado em casa
  • Dificuldade de acesso a acompanhamento

Fonte: Prática clínica — confira o protocolo do seu serviço

Critérios para UTI

Considerar transferência para ambiente de terapia intensiva quando houver:

  • Alteração do nível de consciência
  • Tórax silencioso
  • Exaustão respiratória
  • Hipoxemia refratária
  • Deterioração progressiva
  • Necessidade de ventilação não invasiva ou invasiva
  • Instabilidade hemodinâmica

Fonte: Prática clínica — confira o protocolo do seu serviço

Alta: o que não esquecer

Antes da alta:

  • Tratamento controlador: garantir esquema contendo corticosteroide inalatório (ICS)
  • Técnica inalatória: observar o paciente utilizando o dispositivo e corrigir erros
  • Adesão: investigar acesso ao medicamento, uso correto, interrupções e barreiras financeiras ou práticas
  • Plano de ação: orientar reconhecimento de piora, quando aumentar o tratamento, quando procurar atendimento e sinais de alarme
  • Seguimento: programar reavaliação após a exacerbação

Fonte: GINA 2026 — Global Strategy for Asthma Management and Prevention

Exames e antibióticos

PFE/VEF₁

Quando disponível, medir antes do tratamento e reavaliar aproximadamente 1 hora depois. Continuar acompanhando até haver resposta clara ou estabilização/platô.

A recomendação brasileira disponível no portal do Ministério da Saúde também segue a lógica de medir quando possível e reavaliar em 1 hora.

Fonte: GINA 2026 e Ministério da Saúde — Linha de Cuidado da Asma

Gasometria

Não é exame de rotina. Considerar em pacientes com:

  • Exacerbação grave
  • Deterioração
  • Suspeita de insuficiência respiratória
  • Alteração importante do nível de consciência
  • Hipoxemia persistente

Fonte: GINA 2026 — Global Strategy for Asthma Management and Prevention

Radiografia de tórax

Não solicitar rotineiramente. Considerar quando houver suspeita de:

  • Pneumotórax
  • Pneumonia
  • Complicação
  • Diagnóstico alternativo
  • Falha inesperada ao tratamento

O Ministério da Saúde também orienta não solicitar radiografia rotineiramente nas exacerbações.

Fonte: GINA 2026 e Ministério da Saúde — Linha de Cuidado da Asma

Antibióticos

Não utilizar rotineiramente. Exacerbação de asma não é, por si só, indicação de antibiótico. Considerar tratamento antimicrobiano apenas quando houver evidência de infecção bacteriana ou outra indicação específica.

Fonte: GINA 2026 — Global Strategy for Asthma Management and Prevention

GINA 2026 × Ministério da Saúde: onde divergem

Só os pontos em que as duas fontes dizem coisas diferentes. Nos demais itens desta página elas concordam — salbutamol e ipratrópio por nebulização, sulfato de magnésio, PFE e radiografia.

Pontos de divergência

TemaGINA 2026Ministério da Saúde
Alvo de saturação92–95% (≈93–95% na exacerbação grave)Manter acima de 94%
Quando ofertar O₂SpO₂ <92%Saturação abaixo de 90% indica terapia agressiva
Salbutamol pMDI4 / 4–6 / 6–10 jatos conforme gravidade, a cada 20–30 min4 jatos (400 mcg) a cada 10 min, ou 8 jatos a cada 20 min, por até 4 h; depois a cada 1–4 h
Salbutamol nebulizado2,5–5 mg por dose2,5–5 mg a cada 20 min por 3 doses; depois 2,5–10 mg a cada 1–4 h

Esta página adota a GINA 2026, conforme a nota de metodologia no topo. Siga o protocolo do seu serviço.

Fonte: GINA 2026 e Ministério da Saúde — Linha de Cuidado da Asma

Perguntas frequentes

Quantos jatos de salbutamol usar na crise de asma?

Na GINA 2026: leve, 4 jatos; moderada, 4–6 jatos; grave, 6–10 jatos. Utilizar pMDI + espaçador quando apropriado.

Quantas gotas de salbutamol usar na nebulização?

Com a solução brasileira 5 mg/mL: 2,5 mg ≈ 10 gotas e 5 mg ≈ 20 gotas. Confirmar a apresentação antes da conversão.

Quantas gotas de ipratrópio?

Para a solução brasileira 0,25 mg/mL, 0,5 mg ≈ 40 gotas. O ipratrópio deve ser associado ao SABA nas exacerbações moderadas e graves.

Posso nebulizar salbutamol e ipratrópio juntos?

Sim. A combinação é recomendada pela GINA para exacerbações moderadas e graves no atendimento agudo.

Quando dar corticoide na crise de asma?

Precocemente, nas exacerbações moderadas ou graves. Para adultos: prednisolona 40–50 mg/dia por 5–7 dias.

Quando usar sulfato de magnésio?

Em pacientes com exacerbação grave e resposta inadequada ao tratamento inicial: 2 g IV em aproximadamente 20 minutos.

Quando dar oxigênio na crise de asma?

Na GINA 2026, oxigênio suplementar é indicado quando a saturação está <92%, com alvo de 92–95%. O Ministério da Saúde orienta manter a saturação acima de 94%.

Precisa pedir raio-X na crise de asma?

Não rotineiramente. Solicitar quando houver suspeita de complicação ou diagnóstico alternativo.

Precisa pedir gasometria?

Não de rotina. Reservar para pacientes graves ou com suspeita de insuficiência respiratória.

Quando chamar a UTI?

Na presença de sinais de ameaça à vida, como alteração do nível de consciência, tórax silencioso, exaustão respiratória, hipoxemia refratária, deterioração clínica ou necessidade de suporte ventilatório.

Qual o CID da crise asmática?

CID-10: J45 (asma) · J46 (estado de mal asmático)

Referências

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